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Negócio da China

 

O I-Ching está entre os mais antigos e mais disseminados oráculos divinatórios. Com pelomenos 4 mil anos, este livro se estrutura em torno de uma ideia simples: os acontecimentos do mundo são categorizáveis. Existem padrões naturais, psicológicos e sociais que em linhas gerais se repetem e, sobretudo, mutam uns nos outros de acordo com caminhos também finitos. O I-Ching mapeia estas situa-ções em 64 hexagramas, cada um deles composto por seis linhas que podem ser fracas (yin) ou fortes (yang). Diversos métodos de sorteio permitem escolher, para cada situação vivida, um hexagrama que indica não o que ocorrerá no futuro, mas como se deve proceder no presente.

O uso aparentemente aleatório do I-Ching produz resultados desconcertantes até para os mais céticos, permitindo interpretar situações complexas de um ponto de vista quase sempre esclarecedor. Se o I-Ching detecta regularidades invisíveis para além da física conhecida, ou apenas captura aspectos essenciais da mente humana, é um mistério no limiar da ciência. O que não se disputa é que esse livro reflete o longo acúmulo cultural da civilização chinesa. Hoje, em vez de lançar moedas ou fazer a separação ritual dos caules de milefólio, pode-se consultar o I-Ching pela internet.

Estima-se em dezenas de milhões o número de pessoas viciadas em internet no mundo. A China é justamente o país onde o problema adquire contornos mais dramáticos: mais de 15% da população entre 18 e 23 anos pode ser considerada dependente. Centenas de clínicas realizam internações compulsórias com tratamentos controvertidos que, até 2009, incluíam eletrochoques.

As possibilidades da internet são tão vastas que é compreensível que as pessoas, sobretudo os jovens, passem a viver através dela. É cada vez mais comum estar todo o tempo conectado, chegando a prejudicar o sono. Enquanto o cérebro viaja pelas galáxias, movem-se apenas dedos e olhos. Não surpreendentemente, o excesso de navegação pela internet é acompanhado de aumento da obesidade.

O que isso prenuncia? Difícil dizer. As maravilhas proporcionadas pela rede mundial de computadores criam, dialeticamente, condições para desequilíbrios cada vez maiores. Bons primatas que somos, nos lambuzamos vergonhosamente a cada novo pote de mel descoberto. Inventar a indústria em larga escala trouxe a poluição do ar, da água e da terra. Compreender o átomo logo serviu para massacrar o Japão até a rendição.

Recorrendo ao I-Ching para indagar como devemos proceder quanto ao vício em internet. O hexagrama é claro: “recuo”. Aprender a conviver saudavelmente com algo tão interessante será um trabalho árduo – que em chinês se traduz por kung Fu.

 

Texto de Sidarta Ribeiro - Revista Mente e Cérebro