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Distanciamento e desapego

Distanciamento e desapego

Em nosso mundo atual a palavra de ordem é “sinergia”, que seria o termo pseudocientífico para “mistura”. Imagine alguém sentado sozinho numa sala de televisão, rádio, computador, com a porta fechada e cortinas baixadas. Essa pessoa deve ser um perigoso lunático ou prisioneiro de si mesmo. Talvez um tarado cheirador de calcinhas ou um psicopata planejando seu próximo ataque.

 

Não me admira que o Manual Diagnóstico Estatístico de Transtornos Mentais defina o isolamento como “transtorno de despersonalização”, que é a sensação de estar “desligado de si próprio”, como se o indivíduo fosse um observador externo dos próprios processos mentais ou do corpo físico. Portanto, por este manual, alguém que realiza um distanciamento de si está mentalmente doente.

 

Não pretendo aqui desqualificar o diagnóstico em questão. Mas também não posso deixar de levantar questão sob outro ponto de vista. Penso eu, ao contrário dos diagnósticos tradicionais, que a voracidade em que somos empurrados para essa “mistura”, onde temos que estar ligados o tempo todo com tudo o que passa ao nosso redor, é o que nos está levando à loucura. Não temos tempo necessário para olhar a nossa vida “do lado de fora”, assim perdemos a chance de nos avaliar com menos passionalidade, equilibrando razão e emoção para criar discernimento e consciência.

 

Segundo o livro A Era da Loucura (Michael Foley), após intensa pesquisa, descobriu-se que, de Buda a Sartre (grandes pensadores), o isolamento, no sentido de distanciamento e desapego, era considerado um fator principal da manutenção da saúde mental.

 

Vivemos numa sociedade que venera a autoestima, mas somente a que vem de fora (só me acho bom se alguém me disser isso!). Nos é dito que a falta dela é raiz para todos os males, em especial os males sociais como a violência e baixo rendimento escolar/acadêmico. Devemos fortalecer a autoestima e resolveremos todo resto! Dizem os entendidos. Criamos monstros egocêntricos, isso sim.

 

Diferente do que desenvolver amor-próprio, que implica ser merecedor de respeito, a autoestima, como é usada hoje, não exige esforço de nossa parte, apenas dos outros. Inflar a autoestima pode até piorar os problemas a que se queria resolver. Um ser com essa “falsa” autoestima vai querer que o mundo cumpra suas exigências, caso contrário pode recorrer a violência para ser atendido, pois não desenvolveu o senso de coletividade/humanidade de forma minimamente necessária.

 

O problema se agrava quando somamos a essa autoestima externamente inflada o baixo autoconhecimento. Vivemos um tempo onde o esforço está banido da vida pessoal, estudantil e de trabalho. Tudo deve ser fácil. É difícil nos vermos como realmente somos. A mente se acovarda diante da própria insignificância. É preciso um ato de fé. É preciso morte e renascimento, distanciamento e desapego.

 

Vivemos no mundo da promoção do relativismo epistemológico, que não só rejeita a razão, mas também a verdade, a objetividade e até a realidade dos fatos. É a exigência de qualificação sem estudo. Supremacia da apresentação sobre a explicação, da imagem sobre o conteúdo, da racionalidade sobre a emoção. Também os filósofos tem culpa nisso.