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Uma entrevista imperdível com o tetracampeão Mazinho

“Quando fui convocado para a Copa de 94 eu comprei fogos de artifício e os disparei na minha casa, de tanta alegria. Antes nós pensávamos muito na camisa. Agora, não sei. Não sei se é por causa do dinheiro, ou se muitos preferem sair de férias”.

Enquanto o futebol deste país está parado nesta manhã de quarta-feira, dia 15 de junho, esperando se Tite aceita ou não aceita a Seleção Brasileira, uma entrevista imperdível. E que resume a triste derrocada que vivemos. Ela foi feita por Mazinho, tetracampeão do Mundo. Fez um depoimento sem reparos ao El País, jornal espanhol que é referência para o mundo.

Ela foi reproduzida no excelente blog de Luiz Antônio Prósperi, um dos grandes jornalistas esportivos brasileiros. E informação de primeira qualidade deve circular. As pessoas precisam entender a decadência que a Seleção vive.

Mazinho acertou em cheio.

Não deixou pedra sobre pedra.

Prósperi prestou um serviço público ao reproduzi-la.

Os leitores deste meu modesto blog também merecem essas reflexões...

O Brasil deixou de ser o Brasil?

Hoje em dia existem tantos interesses no futebol... As grandes promessas do futebol brasileiro estão todas no Shakhtar. O maior fabricante de jogadores brasileiros é a Ucrânia. Eles vão ao Brasil, compram os jogadores quando têm 16 anos e quando completarem 18 os levam para a Ucrânia. Compram por quatro milhões de euros e depois vendem por 40. Um bom negócio, mas nós não acabamos a formação dos nossos jogadores. E eles não os vendem mais cedo porque a FIFA não permite. O negócio vem antes da formação.

No entanto, Dunga continua sendo designado como o maior responsável...

Não acredito que o problema seja o Dunga. O problema são os próprios jogadores. O treinador tem menos influência nisso, embora, é claro, possa ter parte da culpa.

Qual?

O esquema de jogo: jogadores muito defensivos e sem jogadores criativos. O problema é que não temos esse tipo de jogadores.

Nem atacantes?

Acabaram todos. Nosso homem se chamava Adriano, mas com todos os problemas dele, acabou se arruinando. E como ele, Pato, Fred e podemos falar de outros mil. Eu gostaria de saber o que acontece na cabeça desses jogadores.

Jogadores da Seleção Brasileira não têm fome?

Não sei, mas não é como antes. Quando fui convocado para a Copa de 94 eu comprei fogos de artifício e os disparei na minha casa, de tanta alegria. Antes nós pensávamos muito na camisa. Agora, não sei. Não sei se é por causa do dinheiro, ou se muitos preferem sair de férias. O problema não é Dunga. Faltam-nos jogadores criativos.

Futebol brasileiro deixou de ser vistoso?

Há pouco tempo, pensava: quando perdemos a técnica? Acho que foi quando ganhamos a Copa do Mundo de 1994, porque foi quando mudamos o esquema de jogo. Nunca antes uma equipe brasileira tinha jogado no 4-4-2. O nosso futebol era um 4-3-3 ou 4-1-5. Não tínhamos homens fixos no meio-campo. Mas, pela necessidade de ganhar um título nos Estados Unidos, mudamos o esquema. Na época, fazia 24 anos desde a última vez que o Brasil havia conquistado uma Copa do Mundo e Parreira pensava que tinha que igualar a força europeia. Ele deixou Bebeto e Romário à frente, sem preocupações defensivas, e os outros tinham de trabalhar como loucos. A partir daí os clubes brasileiros começaram a copiar o sistema. Esse futebol cheio de combinações que tínhamos parecia lento porque os jogadores não se movimentavam, mas não era verdade. Corria a bola, não os jogadores. Ninguém era capaz de nos roubar uma bola. Não havia essa pressa.

O resultado é mais importante do que o jogo?

Sim, porque se um treinador perde três jogos vai para a rua e isso os deixa inseguros. Não existe um plano a médio ou longo prazo. Tudo se resume ao resultado. (Nós, brasileiros,) Começamos a jogar como “operários” e os jogadores mais técnicos foram ficando de lado. Acabaram os camisas 10, acabaram os pontas, e já não produzimos tantos grandes laterais. Hoje jogamos em função do Neymar.

É impossível não depender de um jogador como o Neymar?

É normal depender de um jogador assim. Acontece com a Argentina em relação ao Messi, e isso que eles têm muitos jogadores de qualidade. A presença dele muda os automatismos, que quando não existem a equipe não sabe o que fazer. Claro que você pode ter um jogador que resolva uma partida, mas você tem de pensar no coletivo. E isso é o que acontece com o Brasil. Criou-se uma dependência tão grande do Neymar que quando ele não joga alguma coisa falha. Não há plano a médio ou longo prazo. Tudo se resume no resultado.

Neymar é o último expoente da essência do jogador brasileiro?

No momento não podemos falar de outro jogador. Talvez amanhã surja outro jogador importante, mas agora não há outro. Em 70 era o Pelé e mais quatro em volta dele; em 82 tínhamos Sócrates, Zico e Falcão, que eram o máximo. Em 90 e 94 havia jogadores importantes. Antes, cada time no Brasil tinha cinco jogadores de nível internacional. E quem não era torcedor do Flamengo ou do Fluminense sabia o time que tinham. Hoje, eu que sou torcedor do Vasco de Gama, não sei a escalação do time. Perdemos essa fábrica de jogadores.

Fica triste que seu filho Thiago não jogue pelo Brasil?

Fico, sim, mas não é culpa dele. Foi culpa da CBF. Em 2006 ou 2007 ele recebeu a primeira convocação para a seleção espanhola sub-17. Eu não queria e telefonei para o Brasil, todos os meus amigos da seleção de 94 trabalhavam na CBF. Disse a eles que aqui na Espanha eles deveriam observar três jogadores: Thiago, Rafa e Rodrigo. Três jogadores que estavam surgindo muito bem. E eles disseram que a política era que não queriam jogadores formados fora do Brasil.

“Somos brasileiros”, eu disse a eles. Mas se em casa nos dizem não, então vamos jogar para a Espanha. Mas voltemos ao que eu estava falando, dos interesses que existem no mundo do futebol. Os grupos de empresários entram no meio e querem que joguem na seleção os seus jogadores que atuam nos clubes do Brasil, porque se jogarem na seleção poderão se vendidos para clubes da Europa. Ninguém fez dinheiro com o Thiago. Tem muita gente trabalhando de uma forma muito suja no futebol.

Fonte: Blog do jornalista Cosme Rímoli