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Site coage técnicos a pagar mensalidade para ter cobertura favorável

João Telê, treinador e proprietário do Guaratinguetá Futebol Ltda., é um homem com uma cruzada. Ela teve início no dia 21 de março deste ano, quando o técnico, no gramado do estádio Jorge Ismael de Biasi, em Novo Horizonte, vestiu uma camiseta branca com os dizeres: "Eu estou sendo extorquido pelo Futebol Interior”.

Em síntese, o que o empresário e treinador afirma é que o site “Futebol Interior”, especificamente na pessoa do advogado e jornalista Artur Eugênio Mathias, diretor-executivo do veículo, cobra dinheiro de técnicos, dirigentes e jogadores de clubes do interior de São Paulo para publicar reportagens favoráveis a eles, a quem Eugênio chama de "parceiros".

Já os que não pagam, diz Telê, passam a sofrer perseguição por meio de reportagens críticas, mentiras e ofensas pessoais, além de pressão sobre dirigentes por demissões ou transferências de clubes.

Em entrevista ao UOL Esporte concedida na última segunda-feira (22), Artur Eugênio negou toda e qualquer afirmação de que ele cobraria de quem quer que fosse para produzir notícias positivas ou propagandas travestidas de jornalismo. Negou com mais veemência ainda que pratique extorsão, ameaçando e perseguindo aqueles que não se interessam pela "parceria" com o site.

Ao longo dos últimos sete dias, porém, a reportagem do portal conversou com mais de uma dezena de personalidades do mundo do futebol de São Paulo, e a maioria delas confirmou (algumas sob a condição do anonimato) a existência de um esquema de extorsão no futebol do interior paulista, operado por Eugênio e seu site há, pelo menos, 13 anos. O modus operandi é basicamente o mesmo narrado por João Telê: a oferta de uma "parceria comercial" para que o site produza reportagens positivas sobre o "parceiro". Os que recusam, viram alvo de perseguição.


Histórias que se repetem

No dia 21 de março deste ano, em Novo Horizonte, além de vestir uma, João Telê levou ao gramado 200 camisas denunciando a extorsão que diz sofrer, e as distribuiu para torcedores da equipe adversária, o Novorizontino, que jogava em casa.

Desde então, tem sido assim. Se tem jogo do Guará, tem João Telê vestindo a camisa com sua denúncia, "sempre só quando está faltando cinco minutos para o fim da partida, porque não quero atrapalhar o desempenho do meu time, meu protesto não tem nada a ver com o jogo". Ele avisa: "Não vou parar. Vou levar minhas denúncias, baseadas em provas, ao Ministério Público, à CPI da CBF e do Futebol, ao Ministério das Comunicações e ao senador Romário (PSB/RJ)."

João Telê conta que ele e o seu time, o Guará, no final do ano passado, passaram a ser perseguidos por ter deixado de pagar a quantia de R$ 1.500 por mês para que o site de Eugênio mantivesse a boa vontade para com seu trabalho.

As fontes ouvidas pelo UOL Esporte, atletas, técnicos, dirigentes e jornalistas, narram fatos ocorridos de 2002 até hoje que guardam muita semelhança à história do técnico do Guaratinguetá. Eugênio nega todos eles.

Um dos mais recentes envolveu o ex-gerente de futebol do Guarani, de Campinas, Lucas Andrino Chirico. Ele deixou o cargo no dia 2 de junho. Em coletiva de imprensa em que informava a sua saída, emocionado, afirmou:

"Tem pessoas que tentam se servir do Guarani. Eu não vim para me servir do Guarani, vim para servir o Guarani. Essas pessoas, esses abutres, que odeiam o Guarani, e se diz cronista de alto gabarito. O dia que o Guarani tirar esse abutre de perto com certeza vai navegar em águas mais calmas."

Andrino falou assim mesmo, como está escrito. Começou falando genericamente em "pessoas" e "abutres". Terminou especificando, com "esse abutre", (que) "se diz cronista".

Ao 5º Distrito Policial de Campinas, especificou ainda mais. Deu entrada com uma queixa-crime por ameaça e extorsão, dizendo que vinha sendo atacado por Artur Eugênio e pelo site "Futebol Interior" porque se recusava a escalar este ou aquele jogador, e também porque não havia assinado um "pacote de promoção e divulgação" no site Futebol Interior.

Andrino entregou à polícia a gravação de dois telefonemas efetuados por Artur Eugênio ao então cartola do Guarani. No arquivo de áudio, o diretor do site futebolístico desfere uma série de palavrões contra Landrino, e ordena que ele deixe não só o Guarani, mas a cidade de Campinas.

Meses antes deste incidente, entre abril e março do ano passado, o então presidente do Guaratinguetá, Pedro Panzelli, afirma ter recebido o convite para se tornar "parceiro" do site Futebol Interior. À época, aceitou a proposta, mas acabou por atrasar os pagamentos, o que fez com que o site, de acordo com Panzelli, passasse a publicar reportagens desabonadoras sobre a equipe e o dirigente. "Era assim. Se você pagava, eles falavam bem. Se não pagava, falavam mal", resume.


Zetti, Roque Júnior, Wagner Mancini e processos na Justiça.

Alguns atletas de renome nacional estão entre os que denunciam o sistema de cobrança de atletas supostamente montado por Artur Eugênio.

O ex-zagueiro Roque Júnior é um deles. O atleta montou, em 2005, o clube Primeira Camisa, no município de São José dos Campos. A ideia, contida no próprio nome da agremiação, era dar a primeira oportunidade em um clube profissional a jovens dispostos a fazer carreira no mundo da bola.

Em 2007, o time atingiu seu ponto alto, quando chegou às quartas de final da Copa São Paulo. Nesta época, Roque Júnior foi procurado por funcionários do "Futebol Interior", conforme explica o assessor de imprensa do ex-zagueiro, Acaz Fellegger, que também trabalha para o técnico Luiz Felipe Scolari, entre outras personalidades do futebol.

O assessor de imprensa narra como foi o contato: "Queriam fechar um pacote com ele, promocional, para o Primeira Camisa", explica. "Eu disse que o Primeira Camisa já possuía uma equipe de comunicação, que poderíamos enviar material informativo para eles, e a redação do site poderia utilizar como quisesse, mas que não pagaríamos nada por conta disso, como não pagamos a site ou veículo nenhum".

Depois de nossas recusas, começaram a surgir matérias negativas contra o clube, que passou a ser chamado pelo site exclusivamente de PC São José. O nome Primeira Camisa, que trazia um conceito, a oportunidade em um início de carreira, passou a ser ignorado. “Além disso, o viés das matérias do site passou a ser quase sempre negativo".

Ao UOL Esporte, Acaz Felleger disse ainda que o mesmo ocorreu com outro de seus clientes, o técnico Wagner Mancini. O episódio teria se dado em 2005, quando o treinador comandava o Paulista de Jundiaí. A história é a mesma: tentativa, por parte do "Futebol Interior", de cobrar uma mensalidade, seguida de recusa por parte do treinador, e perseguição do site esportivo.

Em 2009, quando se acumularam denúncias deste tipo, a Aceesp (Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo) abriu uma sindicância para investigar a conduta de Eugênio e seu site.

O problema foi que, no momento em que os denunciantes foram convidados a oficializar suas acusações, muitos tiveram medo de fazê-lo, seja porque temiam que a perseguição do site contra eles aumentasse, seja porque estavam preocupados com sua integridade física.

De qualquer forma, em 2009, um dos poucos atletas que falaram abertamente na sindicância foi o ex-goleiro Zetti, que relatou ter sido achacado por Artur Eugênio enquanto treinava o Ituano (2008). Já na última sexta-feira (19), em conversa com a reportagem, o ex-goleiro e ex-treinador, que agora é comentarista esportivo na Rádio Estadão, preferiu não comentar o assunto: "Ah, não quero entrar em nenhuma confusão, nenhuma polêmica. O que eu tinha a dizer eu já disse na sindicância, não vou comentar nada mais sobre isso", disse.

Além das denúncias de extorsão, Artur Eugênio e seu site também colecionam processos judiciais por danos morais. São mais de 20, somando os que estão em nome do site esportivo com os que têm Artur Eugênio como réu.

Fonte: UOL Esporte