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O reciclado Dorival e o renascimento do Santos no Brasileirão 2015

Foi em outubro de 2010 a última vez que o Santos esteve no G4 do Brasileiro. Sua grande estrela era Neymar. Foram campanhas medianas nestes quase cinco anos. A de 2011 pode ser perdoada porque a prioridade estava na disputa do Mundial de Clubes no Japão, já que o clube havia vencido a Libertadores. As restantes, não.

Ao vencer o Fluminense no último domingo (04), o clube assumiu a quarta colocação no Brasileiro. A classificação emocionou o presidente Modesto Roma Júnior. Às lágrimas eram de alegria.

Há sete passos que resumem o segredo desta reviravolta.

O primeiro passo: A contratação de Dorival Júnior. Desde que foi demitido em 2010 pela diretoria santista, por tentar punir Neymar, o treinador não conseguiu se firma em clube algum. Passou por Atlético Mineiro, Internacional, Flamengo, Vasco, Fluminense, e Palmeiras. Com resultados pífios. Dorival ficou desencantado. E sem ofertas de trabalho. Decidiu ir para a Europa para reciclar seus conceitos (na foto ao lado de Guardiola). Depois de sete meses, teve a chance de voltar ao Santos. Sem dinheiro, com o time mergulhado na zona do rebaixamento e com medo imenso do rebaixamento, Modesto Roma não fez exigências. Dorival teve carta branca. O treinador tratou de chamar para conversas individuais jogadores chaves como Lucas Lima, Gabriel, Ricardo Oliveira, Renato e David Braz. Disse que eles seriam os responsáveis pela recuperação do time. E que teriam todo o apoio do técnico. Seriam titulares absolutos. Mas Dorival exigia entrega de corpo e alma. Além de obediência cega. Os atletas precisavam do técnico. E o treinador precisava dos jogadores. Essa percepção foi fundamental.

O segundo passo: Estratégia. Dorival Júnior percebia o Santos mal distribuído, inseguro de Marcelo Fernandes. Influenciado com o que viu na Europa, o treinador percebeu que o erro estava na recomposição do time. E da falta de segurança dos atletas. Mesmos campeões paulistas, refletiam a insegurança de Fernandes.

Dorival optou por uma equipe com extrema capacidade de marcação no meio de campo. Acabou a farra. Sem a bola, o Santos passa a atuar no 4-5-1. Mas com a marcação avançada dos meio campistas, para complicar a saída do adversário. Com o Real Madrid da temporada passada, com Ancelotti, mal o time recupera a bola, usa a velocidade desabalada de Geuvânio, Gabriel, Ricardo Oliveira. Mas os dois laterais que estiverem em campo. Ficam abertos como pontas. Lucas Lima tem liberdade para mostrar seu talento nos passes, lançamentos.

O terceiro passo: Foi fazer da Vila Belmiro mortal para os adversários. Os números são impressionantes. Desde o seu retorno, Dorival atuou 12 vezes no estádio. E o Santos venceu todos os jogos. Aproveitamento absurdo de 100%. O treinador sabe como utilizar a proximidade da torcida na acanhada arena.

Ele faz algo muito parecido com o que Cuca cansou de repetir com o Atlético Mineiro no Independência. Contando com um time leve, ofensivo e extremamente bem preparado fisicamente, o Santos sufoca a saída de bola do visitante. Pouco importa a tradição, o trata como pequeno. Tanta coragem, habilidade do meio campo e velocidade na frente tem desnorteado que o enfrenta no seu estádio. Dorival exigiu que Modesto Roma confirmasse a semifinal da Copa do Brasil, contra o São Paulo, na Vila Belmiro. E foi atendido.

O quarto fator: Se chama dinheiro. Dorival Júnior teve uma conversa direta com o presidente santista. Mal havia recomeçado seu trabalho na Vila Belmiro. A equipe estava na zona do rebaixamento. Direto, o técnico falou ao presidente. Fizesse o que fizesse, o clube só teria sucesso nas competições se pagasse seus atletas em dia. Se precisasse, atrasasse o pagamento do próprio técnico. Modesto percebeu o cenário. E pediu empréstimos bancários. Desde então, os atrasos de meses nos direitos de imagem e salário desapareceram. As vitória se acumulam. Não foi necessário atrasar o dinheiro de Dorival.

A quinta mudança: Foi a conversa franca com Gabriel. Dorival o encontrou completamente ressentido, desanimado e disposto a ir embora do Santos. O atacante estava perto de completar 19 anos e se cansara de ser eterna promessa, no banco de reserva. O treinador sabia havia o outro lado. O gênio difícil do jogador. Ele estava intratável. Não aceitando questionamentos. E muito menos desempenhar outra função tática que fosse atacar.

Dorival disse que apostaria nele. Seria seu titular absoluto. Desde que jogasse para o time. E não só para ele. A franqueza mexeu com o jovem atleta. Os dois se aproximaram, viraram mais que amigos, cúmplices. E o desempenho de Gabriel melhorou muito. Hoje ele é capaz de fazer gols, abrir espaço para os companheiros e correr atrás de laterais e volantes adversários. Se tornou um jogador mais completo. E importantíssimo para o desempenho do ataque e, principalmente, de Ricardo Oliveira.

O sexto fator é triplo: A liderança de David Braz, Renato e Ricardo Oliveira. Cada um no seu estilo. O espalhafatoso zagueiro incendeia os companheiros mesmo no treino. O discreto e veterano volante é um verdadeiro auxiliar técnico de Dorival. Conversando, mostrando taticamente o que o treinador deseja aos parceiros de time. E Ricardo Oliveira dá o exemplo de dedicação, superação. Aos 35 anos corre mais do que todos. É o que mais se doa nos treinamentos e jogos. Se um atleta de Seleção Brasileira é capaz de suar sangue, os outros também se sentem obrigados a fazer o mesmo.

O último passo: Que explica o Santos é Lucas Lima. Ele ganhou com Dorival Júnior a liberdade que sempre sonhou. O jogador passou a flutuar no meio de campo. Não é mais um mero meia com capacidade de marcar como um volante. Ou um volante que sabe apoiar o ataque. Não.

Virou um meia que ocupa o espaço na intermediária que Paulo Henrique Ganso ocupava em 2010. Ele fica atrás de Gabriel, Ricardo Oliveira e Geuvânio. E ainda aciona os laterais/pontas. Além de ter passaporte livre para invadir a área, chutar de fora da área, ou chegar na cara do goleiro adversário, tabelando.

Se tornou o melhor meia deste país. E um dos atletas mais felizes. Ele não quis ir para Portugal. Disse não ao Porto, mesmo estando com o salário atrasado, em julho. Preferiu acreditar no seu futebol. E na chegada de Dorival Júnior. O treinador deu sua palavra que compensaria ficar na Vila Belmiro. Ganharia um lugar na Seleção e conseguiria se valorizar ainda mais. Estava certíssimo.

Esses são os sete pontos principais na reviravolta santista.

Santos sempre Santos!

Fonte: R7 coluna de Cosme Rímoli