Pinhalzinho

33º

24º

Maravilha

32º

23º

São Miguel do Oeste

32º

23º

Chapecó

31º

23º

Safra no Carnaval

     Fala-se, no Brasil, que as coisas começam a funcionar, mesmo, somente depois do carnaval. Na economia, na política, na educação, leva-se tudo em banho-maria até o desfilar da escola de samba. Quando entra a quaresma, aí, sim, vem a pauleira. Tal regra, porém, vale somente na cidade. Porque no campo o ritmo é diferente. Os agricultores entram no ano novo trabalhando a mil na safra. Outra folia.

     Nesta altura de fevereiro/março, quando a turma da cidade se enfeita para curtir as últimas horas da grande bagunça carnavalesca, a turma do campo está com suas máquinas zunindo na lavoura. Na avenida, hora da diversão; na terra, momento da colheita e da semeadura de uma nova safra. Para aqueles, alegria na dança; para estes, festa no paiol. Curioso é perceber essa diferença de timing entre o campo e a cidade.

     No passado não muito distante, maior ainda era a distância entre os dois mundos. Hoje em dia, progressivamente se aproximam. Primeiro, por causa do enorme êxodo populacional que esvaziou um e inchou o outro. Segundo, porque o campo está sendo "urbanizado" - estradas de asfalto, telefonia, transporte coletivo, internet, melhorias que reduzem as distâncias socioculturais.

     O avanço tecnológico tem modificado o ritmo de vida do agricultor. No tempo de nossos avós havia apenas uma safra por ano. Os cereais eram plantados no início das chuvas, logo na entrada da primavera, quando o tempo esquentava. Entre março e abril realizava-se a colheita. Porém, desde que o melhoramento genético começou a se impor e a mecanização avançou, surgiram novas variedades, com ciclos de produção mais curtos, algumas precoces e outras tardias, adaptadas regionalmente, além de métodos de cultivo especializados. Fruto dessa evolução agronômica, os produtores passaram a ter duas e, dependendo de irrigação, até três safras anuais. Mais complexa, assim, se torna a atividade agropecuária.

      Esse fascinante mundo rural vibra numa sintonia distinta da bateria das escolas de samba. Se os dois eventos pudessem ser comparados - o carnaval e a colheita da safra -, ambos os espetáculos impressionariam um júri especial isento de paixões. Nenhum povo vive sem alegria e os brasileiros transformam o grito de carnaval num momento extraordinário de liberação da energia positiva, dançando, bebericando, paquerando, esbaldando-se até exageradamente. Afora os excessos, a festa promove um encontro bizarro da modernidade com as raízes populares.

     Por outro lado, nenhuma nação sobrevive sem o árduo trabalho dos produtores rurais, que retiram da terra o sustento do povo, oferecem emprego, zelam pela paisagem campestre, protegem os valores históricos. Por isso se assemelham, quanto à sua importância, as festas da avenida e do campo. Embora na arquibancada sobrem aplausos para o desfile, enquanto anonimamente se executa o trabalho rural, ambos são gratificantes.

     Marotos, os agricultores sabem que sem o alimento que produzem ninguém teria energia para enfrentar o carnaval. Nem cachaça ou cerveja existiriam. Uma precisa da cana-de-açúcar, a outra vem do cereal. Palmas para os produtores rurais, que sambam e suam, na colheita da safra.