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Maior tragédia de Nova Erechim completa seis anos

17/10/2017

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Van que transportava os alunos, bateu em um caminhão no município de Gaspar-SC.

Os inícios de setembro nunca mais foram os mesmos desde o ano de 2011 em Nova Erechim. A maior tragédia do município deixou rastros de dor e saudade. Quatro estudantes da Escola de Educação Básica Rudolfo Luzina e mais uma professora perderam a vida num trágico acidente em 3 de setembro de 2011. A Van que transportava os alunos, bateu em um caminhão no município de Gaspar-SC. Quatro morreram na hora. Outra vítima acabou falecendo alguns dias após o acidente.

O sonho de alguns estudantes em conhecer a praia e o Beto Carreiro foi brutalmente interrompido. Os estudantes Bruna Zenni (16 anos), Renata Pezenatto (14), Danielly Hinning (14), Gustavo Simoni Weschenfelder (15) anos e a professora Jocicler Mascarello (45), deixaram belas lembranças e bons exemplos na comunidade novaerechinense que ainda chora à perda dos amigos.

Passados seis anos da maior tragédia de Nova Erechim, a reportagem o Jornal A Sua Voz conversou com duas famílias que perderam seus filhos no acidente e também com uma sobrevivente. Confira

 

GUSTAVO WESCHENFELDER: O sonho de ser jogador de futebol foi interrompido

A família Weschenfelder foi uma das que conversou com a nossa reportagem. A perda do Gustavo, é claro, ainda está muito presente no dia a dia da mãe Rosimeri, do pai Volnei e do irmão Guilherme. Algum tempo após à tragédia, chegou “uma benção”, como diz a mãe Rosimeri. O pequeno Muriel veio para trazer um pouco de alegria para familiares que sofreram muito a perda do Gustavo. Rosemeri descreve abaixo os detalhes do antes, durante e depois da tragédia que vitimou Gustavo

Gustavo era um menino sempre alegre, carismático e com muita facilidade de fazer amigos. Adorava jogar futebol, seu sonho era ser jogador profissional, participava do Genoma Colorado de Pinhalzinho, jogava no CRC, de Chapecó, e foi levado ao Internacional e ao Grêmio de Porto Alegre para fazer testes, e nós sempre o apoiamos, não mediamos esforços para fazer com que seu sonho se tornasse realidade.

Uns dias antes da viagem, foi feito uma reunião na escola com os pais para falar da viagem, e lá foi colocado que iria um ônibus e uma Van e seria feito sorteio para ver quem iria na van. Então o grupo dele se organizou e decidiu que eles iriam, pois não queriam se separar. Nunca comentei com ninguém, mas também não sei explicar direito, mas naquela noite senti algo estranho e falei para ele que era para vir junto comigo no ônibus, ele respondeu: “Mãe, deixa eu ir junto com os meus amigos ”.

Naquela semana começou uma dor terrível nas minhas costas, e como as poltronas da Van não reclinam muito, achei melhor ir de ônibus. Ele estava muito empolgado com a viagem, parecia que era a primeira vez que iria ao Beto Carreiro e a praia, estava muito feliz e dava risada o tempo todo.

No acidente, o Gustavo não morreu no local, ele foi levado ao hospital e permaneceu na UTI até no dia 10 de setembro, quando acabou falecendo. Aquela semana que ficamos no hospital em Blumenau na angústia por uma melhora e ela não acontecia, foi muito dolorosa para todos nós.

No dia 10-09-2011, quando fomos chamados para nos dar a triste notícia, simplesmente não queria acreditar, mas nada mais havia a fazer, a única coisa que nos restava era a decisão da doação dos órgãos ou não. Com a dor de ter perdido um filho, era uma decisão muito difícil, e ninguém queria dar opinião, pois essa era uma decisão só nossa, então eu e o meu marido Volnei, decidimos doar, pois o Gustavo era um menino que sempre dividia suas coisas, gostava de ajudar os outros. Foram doados as Córneas, os Rins e o Fígado.

 

Continua sendo muito difícil suportar a falta da presença física do Gustavo entre nós. É uma dor que permanece ali o tempo todo, foi preciso aprender a conviver com essa dor. O que fica são as lembranças de momentos vividos, das coisas que fizemos, das suas gargalhadas (sempre peço a Deus que não me deixe esquecer suas gargalhadas). É um amor que não cabe no peito.

Tudo em nossa vida mudou, coisas simples que fazíamos e de repente ele não está mais ali. Lembrar da comida que ele mais gostava, do programa de TV, do jogador de futebol, do seu time, das nossas viagens, dos almoços, ver seus amigos na praça e ele não está lá. Enfim, são pequenas coisas que nos faz lembrar a todo momento.

A chegada do Muriel (filho mais novo que nasceu depois do acidente) em nossa família foi uma benção. Não tínhamos planejado e também não pensamos em ter mais um filho depois do acidente, simplesmente aconteceu. Ele veio para nos alegrar juntamente com o nosso filho Guilherme.

RENATA PEZENATTO: A colorada que tinha o sonho de conhecer a praia

Renata Julia Pezenatto, outra vítima da tragédia de 3 de setembro de 2011, tinha 14 anos. Apesar da pouca idade, já tinha certeza de alguns objetivos em sua vida: queria ser jogador profissional no seu clube do coração, o Internacional. A mãe Joceli, que conversou com a nossa reportagem, também emocionou-se ao lembrar de detalhes antes da viagem.

De acordo com Joceli, Renata tinha um sonho também que era de conhecer a praia e o Beto Carreiro. Por isso que no aniversário de 14 anos, comemorado em 1º de julho, Renata não quis saber de festa, penas fez um pedido aos pais que queria participar da viagem para realizar um de seus sonhos que era de conhecer a praia.

Prontamente os pais atenderam o pedido da jovem e fizeram um esforço para reunir dinheiro para viabilizar a viagem de Renata. “Ela passou a semana toda arrumando a mala. O curioso é que ela não fechava a bagagem. Poucos instantes antes dela partir, eu mesma precisei fechar a mala. Lembro que ela disse que seria bom marcar a bagagem pois se fosse acontecer algum imprevisto, seria possível identificar”, recorda a mãe.

Joceli lembra ainda de outro fato que chamou sua atenção, momentos antes da saída de Renata para a viagem. “Ela estava no computador e não saía. Lembro que pedi para ela ficar um pouco conosco para conversar e ela dizia que estava conversando com seus amigos. Depois a gente foi notar que em todas as conversas do antigo MSN ela deixou a seguinte mensagem: ‘Tô indo viajar, se cuidem!’”

Quando recebeu a notícia do acidente, a mãe Joceli não acreditava e estava muito confiante que a Renata havia sobrevivido. “Tinha esperança que não era verdade. Achava que em qualquer momento ela iria entrar pela porta da casa depois de ter realizado o seu sonho”, comenta a mãe emocionada.

A dor da perda ainda está muito forte na família Pezenatto. A Renata não está presente fisicamente, porém, fotos e lembranças estão espalhadas por toda a casa. Até nos sonhos às vezes ela aparece para confortar um pouco o coração da mãe. “Depois do acidente tivemos a chegada de dois netos que acabaram trazendo de volta um pouco de vida para a nossa família. Mesmo assim a Renata deixou um vazio enorme para todos nós. Quanto mais o tempo passa, mais a saudade aumenta”, completa a mãe.

RENATA CORSO: A “teimosa” sobrevivente

Dos sobreviestes da tragédia nós conversamos com Renata Corso. Ela teve inúmeras fraturas pelo corpo e ficou pelo menos 14 dias na UTI. No total foram 31 dias de internamento até voltar para casa.

Renata fraturou o fêmur esquerdo e o úmero esquerdo em vários pontos. A bacia também teve quatro fraturas. Além disso a sobrevivente fraturou duas costelas e teve traumatismo craniano. As marcas do acidente ainda estão presentes no corpo de Renata que totaliza 11 cicatrizes.

Do acidente ela não lembra de nada. Renata não lembra nem de ter viajado. “Só quando alguém me conta alguma coisa que eu fiz ou falei durante o percurso, que vem uma vaga lembrança. Mas muito pouco mesmo”, comenta a estudante de medicina veterinária, que também descreveu alguns momentos da tragédia e de sua recuperação.

 Por Renata Corso

Porque depois de tudo, eu só fui teimosa. Teimei que aquilo era mentira. Olhei pras minhas cicatrizes, passei a mão na minha cabeça, percebi que estava careca, boa parte quebrada e que eu não conseguia andar nem falar direito. Acreditei nesse tal de acidente, mas teimei de novo! Eu não me lembro nem de ter viajado, quem dirá terminar na cama de um hospital daquele tipo. Ali eu não iria ficar, muito menos daquele jeito. Teimosia sempre foi meu pior defeito, mas depois do acidente, virou minha melhor qualidade.

Eu teimei até no dia que vi os túmulos dos amigos que partiram. Depois de vê-los, a realidade bateu. Mas a teimosia ainda insiste em dizer que todos eles estão VIVOS, pelo menos no meu coração. 

Hoje, todo susto passou, mas aquela velha teimosia continua do meu lado. Teimo em aproveitar cada segundo dessa minha nova vida. Digo que amo as pessoas com mais frequência  (inclusive pros meus amigos, coisa que antes eu nunca falava), teimo em ajudar qualquer pessoa, em qualquer situação, não me interessa quem for, teimo que devemos passar mais tempo sentados, tomando um mate e proseando fiado, aproveitando ao máximo a presença física das pessoas que amamos. Teimo que brigar com alguém não vale a pena, afinal essa vida é tão curta! Pra que perder tempo com bobagens? Acho que foi isso que aprendi, ser teimosa ao máximo para as coisas boas da vida, porque se hoje eu não teimar em ser feliz e amar, amanhã talvez a vida não queira mais ver minhas teimosias.

Mas falando bem a verdade, eu só fui teimosa. Porque forte foi meu pai Valdênio e minha vó Maria, que me viram em pedaços, mas não me abandonaram nunca! Me ajudavam a tentar falar, me acalmavam, traziam chocolates escondidos nos bolsos só pra me ver feliz.

Nunca me deixaram chorar, nem se quer uma lágrima enquanto eu estava no hospital, faziam piadas, me contavam histórias, e se ainda assim eu insistisse em chorar, me faziam cócegas até chorar (mas de dor mesmo daí, porque se a barriga tremia os ferros da bacia me machucavam).

Eu queria falar, teimei, falei. Queria andar, teimei e estou andando até hoje, eu quis viver, e fui teimosa novamente. Hoje continuo teimando que amo minha família, e que sempre ela virá em primeiro lugar, acima de tudo (somente debaixo de Deus).