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“Ele era um homem acima de qualquer suspeita”

05/06/2018

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Um homem trabalhador, responsável, provedor, envolvido com as questões religiosas da comunidade e que além de ensinar valores, defendia a família. Parecia um homem perfeito e acima de qualquer suspeita, porém era um estuprador. A história real é de uma família que viveu por várias décadas no município de Guarujá do Sul, no extremo Oeste catarinense. Um casal com quatro filhos: um menino e três meninas, cujo pai era capataz de fazenda, uma pessoa de extrema confiança do patrão e de todos que o conheciam.

 

No entanto, quando pouco antes de a filha mais velha completar oito anos, em um dia em que a menina estava deitada na cama dos pais, local de aconchego onde os pequenos adoram ficar, o pai abusou dela pela primeira vez. “Os abusos começaram de um modo muito sutil, com ele tocando meu corpo”.

 

O tempo foi passando e os abusos evoluindo ao mesmo tempo em que o homem demonstrava interesse com o bem-estar e o desempenho escolar dos filhos, e de modo silencioso e traiçoeiro, o ‘tal pai’ fazia a inocente menina achar que era assim que devia ser. “Ele agia de um modo maquiavélico e manipulador, sempre falando que iria ensinar algo para que eu pudesse saber. Nunca utilizava a violência física, mas palavras que me encarceravam psicologicamente. Percebia que aquilo era errado, mas morria de medo de contar para minha mãe. Eu pedia para Deus todos os dias para morrer antes da minha mãe, pois na inocência de criança eu pensava que se ela morresse primeiro, do céu iria ver os abusos e ficar sabendo de tudo”.

 

Muitas foram as vezes em que a garota era acordada a noite, com o pai cometendo abusos, manipulando seu corpo. “Minha mãe trabalhava o dia todo. Cansada ela adormecia rápido e nunca desconfiava que ele se aproveitava disso para vir até meu quarto, pois como era a mais velha, dormia sozinha, separada dos meus irmãos menores”.

 

Com a chegada do ciclo menstrual, aos 14 anos, os abusos cessaram. A adolescente foi crescendo, carregando consigo um pesadelo e sentindo-se culpada, até que aos 19 anos, com a família já morando em Curitiba-PR, a irmã mais nova contou para uma amiga que sofria abusos do pai. “A amiga da minha irmã obrigou-a contar para mim o que estava acontecendo e foi então que descobri que todas nós éramos vítimas do nosso pai, e que inclusive, a ‘do meio’ era estuprada há muito tempo”.

 

O mundo desabou de vez ao saber que as irmãs viviam o mesmo inferno que ela vivera. “Desesperadas, nós contamos a história a um professor que nos mandou sumir, pois ele não queria envolvimento com isso. Fui ao orelhão chamar a polícia e minhas irmãs gritavam desesperadas com medo do que iria acontecer. Depois de uma longa espera veio a viatura, e a primeira coisa que o comandante pediu era se eu tinha certeza do que estava fazendo”.

 

As adolescentes foram levadas até próximo da casa da família para esperar a chegada do pai do trabalho, pois como fazia muitas horas extras, retornava depois das 20 horas. “Ele foi revistado e preso em seguida. O policial foi até a minha mãe para contar o que estava acontecendo. Eu ouvia gritos como se fossem uivos. Ela não podia acreditar no que estava vivendo. Já meu irmão me abraçou e chorando disse que sempre nos protegeu dos estranhos tendo o criminoso dentro de casa”.

 

O homem foi conduzido à prisão, porém o tratamento às vítimas, há 19 anos, aconteceu sem nenhuma proteção de um advogado, Conselho Tutelar, ou alguém que pudesse protegê-las. “Na última audiência, fui obrigada a ficar frente a frente com ele. Estava todo desfigurado, com muitas marcas de agressão. Era uma cena horrível, como se eu tivesse causado aquela tortura nele. Ele confessou os crimes e suicidou-se no dia seguinte”.

 

Esse relato horrível, cujos detalhes mais estarrecedores foram preservados, não é ficção. É a história real da advogada pinhalense Juliana Barth Boesing. Ela aceitou o desafio de contar o que viveu na Roda de Conversa realizada pelo Fórum Bem-Me-Quer, no sábado, 19 de maio em Pinhalzinho.

 

Juliana, a filha mais velha da história, é um exemplo de superação, pois poderia ter permanecido a vida toda lamentando a terrível prova a que foi submetida por tantos anos, porém, escolheu usar as lágrimas para regar e cultivar flores em sua caminhada. Ela constituiu família em Pinhalzinho, estudou Direito e atua como advogada. “Eu não sou uma coitada, não quero que sintam dó de mim. Quero que a minha história sirva de alerta para as pessoas”, explica.

 

Ela diz que a primeira vez que contou a sua história em público, sentiu-se mal interpretada e retraiu-se. Porém, mais tarde, em uma nova ocasião em que fez seu relato em grande grupo de mulheres, foi procurada por várias, que relataram também terem sido abusadas e guardavam isso consigo. “Cada vez que falo desses fatos, que são parte da minha história e não há como apagar, sou procurada por mulheres que me abraçam e dizem: Comigo também aconteceu, mas nunca pude falar a ninguém”, conta Juliana.

 

Com lágrimas nos olhos, Juliana afirma veementemente que sua luta é em defesa especialmente das crianças. “Quando uma mulher é vítima de violência doméstica, por exemplo, sempre fica algum sinal. Porém, o abuso sexual é muito silencioso, e na maioria dos casos os agressores utilizam-se da proximidade e encarceramento afetivo para manterem as vítimas em silêncio e ainda pensarem que tem culpa da situação a que são submetidas”.

 

Ela relata que ao longo do tempo tem buscado a superação das feridas que ficaram, e que cada vez mais pretende fazer de sua história um grito de luta e especialmente de alerta. “Os abusos acontecem onde você jamais imagina, por isso é preciso desconfiar sempre, prestar atenção nas crianças e adolescentes. Pode sim acontecer um crime como esse perto de você, então não coloque ninguém acima de qualquer suspeita. Denuncie, pois você pode estar salvando a história de uma criança”.

 

Ela finaliza defendendo que nada pode justificar um ato de violência. “Existe uma cultura em que se coloca a culpa na vítima. Isso tem que acabar. As pessoas afirmam: Ah, mas ela foi abusada pois a roupa era indecente! Indecente é forçar alguém a fazer algo contra sua vontade. Precisamos rever nossos conceitos e sempre defender quem de fato, é vítima”.